
Neste final de ano competitivo, decidimos iniciar uma nova rubrica de entrevistas com os principais actores nacionais da pesca desportiva. Como escolha inicial temos o mais galadorado pescador nacional de mar de todos os tempos e actualmente a desempenhar pela primeira vez o cargo de Vice-presidente da FPPD na secção de mar.
1. A sua tarefa desde a chegada ao cargo que ocupa na federação tem sido mais dificil ou fácil do que esperava?
R: Quando aceitei o convite sabia o que me esperava, o que não sabia era que a situação da FPPD em termos financeiros fosse assim tão má. Também não esperava que houvesse tanta resistência por parte de algumas (poucas) pessoas a algumas (poucas) mudanças que foram feitas.
R: A principal diferença é que eu defendo que as provas têm que ser feitas em locais e datas em que haja mais garantias capturas num número razoável. Também defendo que sendo eu o responsável pela elaboração do calendário de provas é lógico que seja eu a escolher os locais e as datas para a realização das provas.
Havia ainda outras ideias no que diz respeito à organização de provas e visibilidade da modalidade que eu queria por em prática e que foi recusado por algumas pessoas pertencentes às Associações Regionais.
3. Na actual conjuntura económica muitos clubes se queixam dos elevados custos que a pesca desportiva acarreta, existe algum plano ou ideia da federação para fazer face a este problema?
R: A redução de custos teria que passar inevitavelmente por uma redução do número de provas, o que depois teria impacto negativo na competitividade dos campeonatos. Nos campeonatos nacionais de surfcasting não se está a pensar mexer, mas nos de bóia há ideias para reduzir os campeonatos. Ao nível dos campeonatos regionais também se está a pensar reduzir o número de provas e haver provas apenas aos Domingos.
Depois os elevados custos de que se fala são os mesmos de que se queixam todos os atletas e clubes das modalidades ditas amadoras, onde os clubes e atletas que as praticam são quem suportam a parte de leão dos custos e apenas praticam essas modalidades mais por carolice e gosto. Nas modalidades amadoras onde está inserida a pesca é difícil arranjar apoios e patrocínios que possam minorar os custos.

4. As grandes deslocações e os fim-de-semana com dormida tem sido apontados como um factor que inflaciona os custos, não haverá nada que pode ser mudado neste particular?
R: Ao nível dos campeonatos regionais está a pensar-se reduzir o número de provas e haver provas apenas aos Domingos.
Eu posso dizer que actualmente o que fica caro não são as dormidas, são deslocações, por causa do preço do combustível e das portagens.
A nível Nacional pouco há a fazer, as provas têm que ser marcadas duma forma racional e equilibrada um pouco por todo o País, para que toda a gente não se sinta muito prejudicada.
Claro que quem vive nas extremidades do País (Minho e Algarve) faz sempre mais quilómetros que os residentes nas zonas centrais.
5. Conta-se por ai que a federação andará a fazer força para que o pagamento da licença desportiva seja nulo por parte dos atletas federados, isso tem alguma verdade?
R: Nunca ouvi falar nisso nas reuniões da Direcção à qual pertenço.

6. Considera justa a actual licença de pesca desportiva para pesca no mar? Acha que a pesca desportiva têm algum impacto na fauna maritima? E para finalizar este tema, considera justo o local onde estão a ser aplicados os fundos das licenças desportivas maritimas?
R: Não me escandaliza o pagamento da licença, mas acho que devia haver uma atenção para os idosos e reformados.
Falando na pesca desportiva de competição não me parece que o impacto dela na fauna marítima seja negativo. A actuação dos pescadores desportivos de competição e as quantidades de pescado capturadas não são significativas de causar impacto no meio ambiente.
Claro que não concordo com a aplicação dos fundos provenientes das licenças desportivas marítimas. Defendo que esse dinheiro deveria ser aplicado na melhoria de condições para que quem paga as licenças, tenha melhores condições para a praticar.
Essas melhorias poderiam ser feitas ao nível das acessibilidades e limpeza dos pesqueiros.
7. O que falta ao pescador desportivo médio português para elevar o seu nível qualitativo?
R: Falta essencialmente mentalidade competitiva. Não pensar que os resultados na pesca de competição, são obtidos principalmente por sorte, mas sim pelo trabalho e aplicação do atleta.
Poucos atletas de competição têm um plano de treinos organizado. A maioria dos atletas apenas pesca no dia das provas.

8. Acha que as associações poderiam ter um papel mais activo que não apenas organizar as provas? Se sim, que ideias apontaria?
R: As Associações Regionais são quem está mais perto das bases e do poder local e por esta razão são elas que têm um papel preponderante na divulgação e na captação de novos atletas.
Claro que actualmente não é fácil, porque as pessoas que estão à frente das Associações (e da FPPD), não estão lá a tempo inteiro e também têm empregos e família e por esta razão nem sempre é possível fazer o trabalho desejado.
Pelas mesmas razões, actualmente também se nota cada vez mais o afastamento das pessoas do associativismo e isto faz com que seja difícil arranjar pessoas para completar elencos directivos e desenvolver um trabalho mais visível e completo.
A carolice está a morrer e como não existem verbas para a profissionalização dos cargos,, temos todos que contribuir um pouco para o desenvolvimento e crescimento da modalidade de que tanto gostamos.
José Afonso entrevistado por Marcos Palmeira
