Em primeiro lugar gostaria de avisar os pescadores mais recentes na modalidade do surfcasting que não há receitas instantâneas para fazer super lançamentos, visto haverem muitos factores envolvidos
Mas, o que talvez poderá influenciar a evolução da distância a que vamos lançar, será sem dúvida o treino e a prática do lançamento.
Hà várias técnicas de lançamento no surfcasting, nomeadamente as três mais usadas e que depois podem ter pequenas variações, a conhecer: o lançamento por cima, o groundcasting e o lançamento pendular. Quando estamos a falar de alcançar grandes distâncias então apenas os dois últimos são os que devemos utilizar. Este artigo não vai explicar nenhum deles, ficará para outra altura, vai sim falar de conceitos fundamentais a ter presente quando estiver a aperfeiçoar o lançamento à distância.

"Numa praia plana e com pouca água, lançar muito longe é a única solução"
Sem dúvida que saber lançar mais longe (quem já andou praticou pesca de competição sabe isso), pode fazer toda a diferença quando o peixe não está próximo (Posso afirmar que todos os pescadores da primeira divisão nacional são grandes lançadores), por isso aconselho uma prática diligente para atingir melhores resultados. A pratica aconselhada é ir para uma praia sem pessoas e praticar o lançamento pretendido na areia, com chumbada apenas e marcando as distâncias atingidas por cada tentativa.
Mas, também é importante referir, que nem sempre é necessário lançar para muito longe para apanhar peixe, aliás, muitas vezes o peixe está na rebentação e nós estamos a perder tempo e a cansar o corpo com lançamentos para “cascos de rolha”.
Eu costumo, em muitas situações, fazer um paralelismo estatístico a muitas situações de pesca e a par de uma boa apresentação do isco ao peixe, o lançamento para longe pode aumentar em muito as probabilidades de se ter sucesso nas capturas.
Gostava de assim lembrar alguns pontos fundamentais do lançamento;
1. Até parar, a montagem deve-se mover sempre na direcção da ponta da cana.
2. Para "carregarmos" a cana em condições temos de iniciar o movimento devagar e depois acelerar gradualmente de forma a atingirmos a velocidade máxima mesmo antes de pararmos a cana. Se começarmos muito depressa, a montagem também se vai mover muito depressa e por isso nunca irá "carregar" devidamente a cana.
3. Para aproveitar convenientemente toda a potência guardada na cana, temos de parar abruptamente a cana sem nunca baixar a ponta desta do ponto de saída do lançamento.
4. Como qualquer pessoa que tenha estudado física no 12º ano, sabe que, em balística, o ângulo ideal para um projéctil atingir a distância máxima é 45º.
5. A chumbada utilizada para maximizar o lançamento depende da acção da cana e não exclusivamente do peso da chumbada, ou seja, uma chumbada maior não reflecte sempre um lançamento mais longo. Devemos por isso, estudar a acção da nossa cana de forma a optimizar o conjunto cana-chumbada.
6. Usar SEMPRE shockleader para este tipo de lançamentos, assim evitamos perder imensas montagens e colocar em perigo quem estiver à nossa volta. O comprimento do shockleader deverá ser, pelo menos, igual a duas vezes o tamanho da cana que estivermos a utilizar.
7. Qualquer folga na linha vai fazer que a cana não "carregue" completamente. Isto aplica à linha no carrego e a qualquer falta de tensão desta durante o lançamento.

"Nas ilhas britânicas e nos campeonatos de lançamento é normal usar carretos de multiplicação, pois estes permitem atingir distâncias maiores"
No lançamento que utilizo quando pretendo atingir grandes distãncias, o Groundcast, tenho umas dicas importantes, que com alguma piada posso dizer que aprendi fora da pesca... a praticar AIKIDO.
Nesta arte marcial praticamos com armas, mais especificamente com duas, chamadas Bokken e Jo, que são parecidas com uma espada de madeira e um cajado.
Ora bem, muitos dos princípios de bater com a máxima potência com estas armas, ou uma Katana... são aplicáveis ao lançamento em distância.
Por exemplo, o lançamento tal como o corte de uma espada, deve ser feito com o conjunto corpo e braços e não apenas com a força dos braços. É frequente ver tipos fortes de braços a aplicar apenas a força braçal ao lançamento e depois ver um tipo mais pequeno e até mais franzino a superar o primeiro com certa facilidade... e dizermos que este último tem mais jeito. Pois, se dissecarmos o movimento dos dois indivíduos, poderemos reparar que o primeiro estará, como eu já disse, a usar apenas a força dos braços e o segundo a trabalhar o movimento como um todo, baixando o centro de massa da rotação e sobretudo a fazer o movimento a partir das ancas.
Outra particularidade do lançamento e do corte de uma katana é que o movimento não é um percurso de translação do objecto no ar de duas linhas mais ou menos paralelas, mas sim uma translação em função de um eixo que é o local de pega... a implicação disto está no campo da física, o movimento da ponta da cana está a uma velocidade superior de rotação do que a pega. O mesmo se passa com a katana, onde o corte é feito com os ultimos 30% da lâmina.

"A prática do Suburi nas artes marciais Kenjutsu, Aikido e Kendo tem muitos pontos em comum com o lançamento"
Se os meus braços durante a rotação do Groundcast se posicionarem na frente do meu corpo prematuramnte, então, a tendência é que eu baixe a ponta da cana e assim "descarregue" a tensão da mesma, o que me fará perder muitos metros no lançamento.
No ponto 2. referi um início mais lento para o movimento e progressivamente aumentar a rotação até ao máximo, de igual forma, no corte da espada e no movimento de treino do Aikido chamado "Suburi" este princípio é aplicado, sendo que a força máxima de impacto do corte estará apenas presente no momento final. (Ver video exemplo no metacafe)
Ainda sobre a ajuda que as artes marciais podem dar nas técnicas do lançamento, o Aikido tem uma técnica de rotação em pé chamada "Tai Sabaki" - esta técnica treinada afincadamente por todos os Aikidocas, é utilizada em muitas tecnicas de projecção e imobilização. (Ver video exemplo no Youtube).
O treino desta técnica de rotação é excelente para o treino do groundcasting, pois a rotação é muito semelhante e o controlo do peso no movimento é essencial para um bom lançamento. O peso do binómio cana-pescador não deverá passar desproporcionadamente da perna de trás para a da frente a quando da rotação sobre o eixo do lançamento, correndo assim o risco de acabarmos por fazer o lançamento em desiquilibrio. O treino do equilibrio em movimento está patente em muitas artes marciais, não só no Aikido, mas também no Karaté, no Kendo, etc...

"Impact Shield"
Para finalizar, gostava de deixar umas considerações sobre os iscos a utilizar e os lançamentos à distância. Nem todos os iscos são aconselháveis para este tipo de lançamentos, a fragilidade de alguns iscos é inimiga da captura, principalmente, quando estamos a levar o material ao limite e não vale a pena por a chumbada a 150m se o anzol não tiver isco.
Obviamente a qualidade de quem isca ajuda, mas os iscos mais resistentes, como o coreano, o casulo ou a amêijoa, conseguem suportar melhor o esticão do lançamento. Ainda sobre o lançamento à distância e a protecção do isco, os americanos/ingleses têm o hábito de usar algo chamado "Impact Shield", que melhora a penetração aerodinâmica da montagem durante o vôo e o impacto na agua do isco, pessoalmente não acho que me faça muita diferença e aquela aparelhagem toda em espécies mais “tímidas” não me agrada muito... mas é apenas uma opinião.
Clique aqui para ver um vídeo interessante da breakaway
Bons lançamentos!
